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Carta de despedida

 

30 de Janeiro de 2012

 

Por  Silmara Quintino professora de Sociologia e ex – técnica pedagógica da SEED:

 

Então…esta é uma carta de despedida. Depois de 1 ano e 8 meses ocupando a função de Técnica Pedagógica (super) responsável pela disciplina de Sociologia do NRE( Núcleo Regional de Educação) – Curitiba, tive que deixar a função nesta sexta-feira dia 3 de janeiro de  2012 por determinação da chefia do NRE. Até que eu durei no cargo tendo em vista que ir para o NRE nunca foi minha maior aspiração profissional. Quem me conhece mais de perto sabe que eu fui para o NRE por falta de opção quando tive que sair do Colégio Estadual do Paraná porque apoiava a professora Madselva que havia perdido o cargo e eu não sobreviveria no Estadual porque NUNCA trairia o respeito e a admiração que tenho por ela ainda hoje.

No começo aquilo foi um verdadeiro castigo para mim que amava ser professora de adolescentes e me vi sem escolha tendo que assumir um trabalho do qual eu nem sabia que um dia poderia vir a gostar… mas c’est la vie. Fui aprendendo o trabalho e me apaixonando por ele. Conheci muitos de vocês através deste trabalho e aprendi coisas, troquei experiências, cresci na troca de conhecimentos com vocês. Contudo, vocês lembram que eu sempre me apresentei nos cursos dizendo: eu SOU professora de Sociologia e ESTOU técnica. Nunca perdi isso de vista. O tempo passou e o governo mudou e eu que nunca fui tucana resolvi voltar para a sala de aula, mas fui convidada por uma amiga que virou chefe para assumir três disciplinas e continuar no NRE.

Confesso que só aceitei de medo deles terem a idéia infeliz de colocar um professor de Filosofia para assumir Sociologia. Fiquei uns meses com as três disciplinas e consegui largar Filosofia por total falta de competência teórica e meses mais tarde larguei Ensino Religioso. Quando resolvi ficar no NRE, muitos de vocês me perguntaram indignados: “Você vai trabalhar para esses tucanos?” respondi que não trabalharia para o governo, mas sim para o ESTADO e que ficaria enquanto pudesse ter autonomia e liberdade de expressão e até sexta-feira (3/1/2012) vinha conseguindo manter minha integridade ideológica. Mas, como muitos de vocês acompanharam, neste último mês resolvi fazer o que sempre sonhei desde que entrei como professora contratada da SEED -Secretária de Estado da Educação – em 1995 – brigar para que as aulas de Sociologia fossem atribuídas apenas aos professores formados em Sociologia. Detalhe: embora eu seja uma pessoa super criativa, não fui eu quem inventou essa “BOBICE” (como chamou uma diretora de Santa Felicidade), existe uma legislação, uma deliberação do Conselho Estadual de Educação a 003/008 (que vocês estão carecas de conhecer) que determina isso e eu, numa “ingenuidade que beira à burrice”, acreditei (pior que acreditei mesmo) que o chefe do Núcleo faria cumprir esta norma. Vocês acreditam que eu pensei que o Conselho Estadual fosse maior que a SEED? Pior – pensei que o Conselho queria mesmo que a deliberação fosse cumprida. Uma mulher (como diz Frei Beto) tão “lida” como eu, fui enganada como criança que come verdura para ganhar doce. Deu no que deu… A chefia maior cobrou a chefia mediana e esta determinou à chefia menor que eu fosse desligada do tal cargo e voltasse para a sala de aula na sexta–feira como se tivesse sido apanhada roubando, igual aquele Derosso (de qual partido mesmo?). Quer dizer, se eu tivesse roubado como alguém daquele partido talvez tivesse sido promovida e não dispensada.

O chefe do NRE alegou que eu passei por cima da autoridade dele e estava incitando vocês a se rebelarem contra a SEED e agora tem uma pedagoga de quinta categoria no setor centro ameaçando os professores que estão exigindo seus direitos dizendo que “confundi as leis, falei o que não podia e JÀ fui mandada embora por isso”. Essa tucanada é mesmo equivocada, primeiro porque eu NÂO tinha sido mandada embora, eles não podem fazer isso, pois sou CONCURSADA e passei em 4º lugar geral no Concurso de 2004 (aliás, o único que já tivemos) e não vim da prefeitura com cargo comissionado (o governo passa e eu fico), segundo porque se alguém deveria ser mandado embora deveria ser quem faz falcatrua, esconde aula para amigo e transgride norma (quem faz e quem facilita ou  permite que seja feito). Disseram que me mandaram de volta para a escola por conta de um e-mail que mandei para vocês alertando o que a APP – Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Educação do Paraná (surpreendentemente para mim) havia alertado em dezembro de 2011. A diferença segundo eles é que quem trabalha no NRE é SEED também (quando convêm eles se lembram disso) e não pode tomar o partido dos professores. Como eu NUNCA fui SEED, e sim professora, não me dobrei e NUNCA me dobrarei por conta de um cargo qualquer. Não fiz concurso para ser Técnica (esta vaga, aliás, nem existe em nosso plano de carreira), fiz concurso para ser professora e é o que volto a ser a partir de hoje (3/1/2012), isto para mim não é um castigo, é uma opção profissional.

Agora vocês não me fazem mais inveja, também terei 60 dias de férias, todos os recessos do calendário, um dia de folga por semana e vou fazer o que faço melhor e com mais prazer na vida: vou dar aulas para gente que paga imposto para eu ter emprego e que precisa muito de Sociologia para aprender a votar melhor. Não vou da vida pública a exemplo de Getúlio Vargas que saiu da vida para entrar na história, porque não tenho muita vocação para ser mártir e entre o Ghandi e o Chê eu sou mais o Hugo Chaves. Um dia meu amigo disse num momento que havia perdido coisas importantes: “que bom que você perdeu tudo, porque perdendo tudo você está livre de tudo e agora o resto do mundo pode ser seu.”

Fiquei pensando nisso neste fim de semana, que bom que agora sou “apenas” professora, porque sendo professora posso mandar este carta para quem eu quiser (até para vocês), posso ir para o Sindicato (se é que o sindicato serve para alguma coisa) organizar passeatas e planejar revoluções. Estou LIVRE e agora o mundo todo pode ser meu!

Obrigada pelo carinho, pela oportunidade de aprender com vocês e pela paciência de lerem esta carta até o fim. E vê se lutam por seus direitos porque eu sempre vou lutar pelos meus.

Como disse lindamente meu poeta gaúcho Mário Quintana: “Estes (tucanos) que aí estão atravancando o meu caminho, eles PASSARÃO, eu passarinho”.

Eles podem até arrancar as flores do nosso jardim, mas não poderão deter a nossa primavera.

Hasta luego e hasta la vitória SIEMPRE!!!!!

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